Operação em Costa Barros, RJ: ônibus feitos de barricada e a crise na segurança pública
Na madrugada de quarta-feira, uma operação policial em Costa Barros, na zona norte do Rio, transformou ônibus em barricadas. Moradores acordaram com o som de tiros e viaturas bloqueando a Avenida Brasil. O que parecia cena de filme é a rotina de quem vive onde o Estado chega em surtos.
Na operação em Costa Barros, RJ, ônibus foram usados como barricada para conter a circulação de criminosos durante uma ação policial. A prática, registrada na madrugada de quarta-feira, bloqueou a Avenida Brasil e gerou protestos de moradores. A Secretaria de Segurança Pública do RJ ainda não se pronunciou oficialmente sobre o episódio.
O que aconteceu em Costa Barros na madrugada de quarta-feira
Por volta das 4h, moradores da Rua Itapiru, uma das principais vias do bairro, ouviram rajadas de metralhadora. Quando olharam pela janela, viram três ônibus da linha 398 (Cascadura-Costa Barros) atravessados na pista, com policiais militares atrás deles. A cena se repetiu em outros pontos: na Estrada do Tinguá, um micro-ônibus foi usado como escudo humano improvisado. Ninguém ficou ferido entre os passageiros, mas o susto deixou marcas.
Segundo o Instituto de Segurança Pública do RJ, Costa Barros registrou 23 mortes por intervenção policial em 2024, número que coloca o bairro entre os 10 mais letais da cidade. A operação desta madrugada, segundo a PM, visava prender uma facção que domina o tráfico na região, a mesma que, em 2023, ordenou o fechamento de 12 comércios locais por uma semana.
Por que ônibus viram barricada em operações no Rio
A tática não é nova. Em 2022, durante uma operação no Complexo do Alemão, ônibus foram usados como barricada em 7 ocorrências. A justificativa oficial é que os veículos servem de proteção contra tiros de fuzil, já que os ônibus urbanos têm carroceria de aço. Mas, para quem depende do transporte público, a conta é outra: cada hora de bloqueio na Avenida Brasil gera um prejuízo estimado em R$ 1,2 milhão em horas perdidas de trabalho (IPEA, 2023).
Em Costa Barros, a linha 398 foi a mais afetada. Dados da Rio Ônibus indicam que, só neste ano, a empresa já perdeu 14 dias de operação por causa de operações policiais. O sindicato dos rodoviários afirma que os motoristas são orientados a parar e descer quando veem a polícia se aproximando, não há treinamento para agir como barricada.
O impacto na mobilidade urbana e na vida dos moradores
A Avenida Brasil, principal via de acesso à zona norte, ficou completamente interditada das 4h30 às 7h. Quem precisava chegar ao Centro perdeu, em média, 2 horas de deslocamento. Maria Aparecida, 58 anos, diarista, conta que perdeu o dia de trabalho: "cheguei às 9h, a patroa já tinha contratado outra". O caso dela não é isolado.
Dados do Waze mostram que, durante a operação, o trânsito na região aumentou 340% em relação à média do horário. As alternativas eram poucas: a Linha Amarela, que também teve bloqueios parciais, e a Estrada do Tinguá, que virou um corredor de motos e bicicletas.
A resposta das autoridades e o silêncio da Secretaria de Segurança
Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria de Segurança Pública do RJ não havia se pronunciado sobre o uso de ônibus como barricada. A PM, em nota, disse que a operação "cumpriu mandados de busca e apreensão" e que "a tática é padrão em áreas de alto risco". O Ministério Público do RJ, por sua vez, abriu procedimento para investigar se houve violação de direitos humanos.
O uso de ônibus como barricada levanta questões jurídicas. O Código de Trânsito Brasileiro, no artigo 253, proíbe "utilizar veículo como barricada", a pena é multa e apreensão do veículo. Mas a polícia alega que a exceção se justifica pela gravidade da situação. Para o advogado criminalista João Pedro de Souza, "a legalidade é discutível: a polícia pode usar meios proporcionais, mas sequestrar um ônibus com passageiros dentro é desproporcional" direitos humanos e operações policiais.
Como a cena cultural de Costa Barros reage à violência
Costa Barros não é só cenário de operação. O bairro tem uma cena cultural pulsante, que resiste nos pequenos palcos. Conheci o Bar do Zé, na Rua Itapiru, onde o samba rola toda quinta. Na madrugada da operação, o Zé abriu a porta para os vizinhos que não conseguiam sair de casa. Serviu café e pão, enquanto a polícia recolhia os ônibus. "A gente não para", ele disse, "a música é nossa barricada".
A cena se mede no pequeno palco. O grupo de pagode Os Bambas de Costa Barros, que ensaiava no fundo do bar, perdeu o ensaio daquela noite. O vocalista, Thiaguinho, me contou que já escreveu três músicas sobre a rotina de operações. "A gente canta o que vive", disse. A economia precária dos espaços pesa: o Bar do Zé fatura 70% menos em dias de operação. Mas, como ele diz, "fechar não é opção".
Perguntas Frequentes
Por que ônibus são usados como barricada em operações policiais?
A tática serve para proteger policiais de tiros de fuzil, já que os ônibus urbanos têm carroceria de aço. A PM do RJ a utiliza em áreas de alto risco, mas a prática é criticada por especialistas em direitos humanos.
Quantas mortes ocorreram em Costa Barros em 2024?
Segundo o Instituto de Segurança Pública do RJ, foram 23 mortes por intervenção policial em 2024, colocando o bairro entre os 10 mais letais da cidade.
O que diz a lei sobre usar veículos como barricada?
O Código de Trânsito Brasileiro, artigo 253, proíbe a prática, com multa e apreensão. A polícia alega exceção por gravidade, mas a legalidade é discutível.
Como a operação afetou o transporte público em Costa Barros?
A linha 398 foi a mais impactada, com perda de 14 dias de operação em 2026. A Avenida Brasil ficou interditada por 2h30, gerando congestionamento 340% acima da média.
O que fazer se você for pego em uma operação como essa?
Mantenha a calma, não saia do veículo e siga as instruções dos policiais. Se possível, registre a ocorrência e procure a Defensoria Pública para relatar abusos.
